quinta-feira, 30 de julho de 2009

O peso de uma palavra

Foi bem dita. Senti prazer ao pronunciar cada letra. Meu amor gostou de ouvi-la. Ela saiu da minha boca como vento. Não foi pensada, não foi planejada. Cometi o impensável. Eu disse. Ele ouviu. Balbuciou de volta pra mim, no pé do meu ouvido. Ao ouvi-la de volta, transcendi. Cheguei ao apse. Sorri, celebrei. Momentaneamente parei. Respirei. Ele olhou. Não entendeu. Foi então que uma lágrima escorreu. Ele ainda estava dentro de mim. Eu disse. Ele questionou. Não entendi. Chorei. Doeu, depois do prazer veio a dor. Não achei que seria capaz. Não pensei que me levaria ao topo e depois ao poço. Perdi. Ele entendeu. Ele não ganhou o merecido, era justo que devolvesse a ele o que ele me proporcinou. Mas chorei. Parei. Ele dormiu. Eu fiquei.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Para Ana Vitória

Quando uma vida está a caminho através de uma barriga conhecida, uma barriga amiga, nos pomos a pensar. O primeiro pensamento que me ocorreu quando soube da notícia foi : Deus, por favor, mande uma menina! E foi mesmo a vontade de Deus. O mundo não precisa de mais um homem... A natureza é sábia. O tempo de gestação é o tempo necessário para que a mãe, avós e família se adaptem e criem um mundinho, um ninho, para receber essa criança.
Enquanto minha amiga concebe e prepara um mundinho para a Ana Vitória, não consigo parar de pensar em todas as mudanças que ocorrem em nossas vidas, onde concebemos e criamos um espaço para algo que parte de dentro de nós ou simplesmente nos acontece. Fatos, pensamentos, aprendizados, que nos desmontam e nos fazem catar nossos pedacinhos, refazer, criar e mudar conceitos, ideias e ideais. A dor de colocar pra fora um sentimento ou ideia que estamos amadurecendo há tempos em nossa cabeça pode ser comparada a dor de um parto? Os momentos de transição pelos quais passamos quando algo nos cutuca e nos inverte em todos os aspectos pode ser comparado a uma gestação? A sensação de dever cumprido, de calmaria depois da tempestade, um gostinho de vitória que sentimos quando nos superamos e conquistamos aquilo que foi proposto durante tanto tempo em nossa mente pode ser comparado ao que minha amiga vai sentir quando colocar pela primeira vez a Ana Vitória no colo?
Comparamos diversas vezes casamento com situações e relações que passamos na vida. Podemos comparar um filho? Um livro seria um filho, para um escritor que passou mais da metade de sua vida trabalhando nas mesmas páginas, até que ficassem do jeito por ele proposto inicialmente? Um filho, assim como a obra de um escritor, não se controla eternamente. Moldamos um filho, ensinamos e estimulamos a fim de fazer com que ele suceda na vida, assim como o escritor pensa em cada palavra de seu livro. Um livro depois de pronto, se remete sempre às interpretações de seus leitores. E um filho depois pronto?

Pensamentos persistentes.

Insisto para que ele suma, vá embora. Mas ele persiste em voltar, como se estivesse me mostrando alguma coisa. Não é aprovado por minha razão que este insista em ficar atrás de mim. A lógica diz que não, mas minha mente se vê inundada por ele, e quase que afogando sou obrigada a afugentá-lo correndo, com medo de mim mesma, medo de perder a respiração ou abrir o coração.
Mas se deixá-lo escapar, irei me arrepender? Se este pensamento recorrente, for em suma, a minha salavação? Se deste pensamento depende meu futuro? Porque não posso ouvi-lo? Porque não consigo pensar num futuro ao lado dele? Tão pouco consigo pensar em um futuro sem ele. Mas imaginação corre longe, corre com a velocidade de um jato, e quando menos espero, lá estou com ele de novo. Sempre no futuro, nunca no presente. No futuro ele é como presente. No presente ele me remete ao passado. Passado que não aconteceu, que poderia até ter acontecido, mas foi interrompido por mais um dos presentes da vida. Nessa confusão de tempo, pensamento e muitos poucos fatos, meu coração se desenrola, se desmancha e se parte. Chora.